quinta-feira, 4 de setembro de 2014

STJD exclui Grêmio da Copa do Brasil por ofensas racistas a Aranha


Tribunal também definiu multa de R$ 54 mil ao clube

Atualizada em 03/09/2014 | 19h3503/09/2014 | 17h38
STJD exclui Grêmio da Copa do Brasil por ofensas racistas a Aranha SANDRO VOX/Agência O Dia
Foto: SANDRO VOX / Agência O Dia
A 12 dias de seu aniversário, o Grêmio sofreu um duro golpe. E logo de seu maior patrimônio: a torcida. Os insultos racistas de alguns torcedores ao goleiro Aranha foram condenados na Terceira Comissão Disciplinar do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) com a exclusão da Copa do Brasil. 

O clube ainda foi multado em R$ 54 mil pelo papel higiênico arremessado a campo na Arena e pelo atraso ao voltar para o segundo tempo. Os torcedores gremistas identificados pelos insultos foram proibidos de frequentar estádios de futebol por 720 dias. 

O Grêmio recorrerá ao Pleno do tribunal. A tendência, porém, é de novo revés. A direção não descarta recorrer à Fifa contra a sanção. Revoltado, o clube promete ainda fiscalizar todos os demais times do Brasileirão e exigirá punição a qualquer outro ato de ofensa e injúria. A procuradoria do STJD ainda poderá ingressar no Pleno pedindo que o Grêmio seja condenado ainda com perda do mando de campo no Brasileirão. 

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Antes da sessão, o Grêmio pediu ao presidente da Turma, Fabrício Dazzi, que a audiência fosse a portas fechadas, sem a presença da imprensa. Com o pedido negado, o clube teve que se defender mesmo na presença de 42 jornalistas. 

A decisão que puniu o Grêmio foi unânime: cinco votos. Todo o colegiado acompanhou o voto do relator Francisco de Assis Pessanha Filho. Os auditores alegaram estar votando por uma punição didática à torcida do Grêmio. 

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— Não foram apenas quatro ou cinco pessoas que fizeram aquilo contra o Aranha. E foram atos repugnantes. Esta erva daninha está crescendo e começando a se espalhar pelo Brasil e tem que ser cortada pela raiz. Aquilo afetou a dignidade do atleta. Foi bem diferente de uma cera. Fatos extremamente graves — afirmou Pessanha, ao pronunciar o voto, que acabou acompanhado pelos demais. 

Palavras como "nojeira", "ação absurda" e que o Brasil poderá ser no futuro uma "sociedade deteriorada pelo ódio" também foram utilizadas pelos auditores para definir as injúrias racistas a Aranha durante os seus votos.

— Esta decisão vai criar precedente, sim. Isso só vai mudar quando um clube for punido pelos atos da sua torcida — disse o auditor Ricardo Graiche. 

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Presente no julgamento, o presidente do Grêmio, Fábio Koff, era todo tristeza. Foi com um semblante cansado e sério, recostado na cadeira do tribunal, sofrendo com as cortantes palavras dos auditores e por vezes fazendo esforço para escutar as quase quatro horas de depoimentos e votos, que o dirigente recebeu a punição.

— Se esta condenação servir para acabar com o racismo no Brasil, será fantástico. Mas não creio que isso vá ocorrer. A punição foi exagerada — protestou Koff. — O Grêmio é o clube que mais se preocupa em fazer campanhas contra o racismo — completou. 

O Grêmio deverá ingressar com recurso ao Pleno até a sexta-feira. Um novo julgamento deverá ocorrer na semana que vem. Até lá, o chaveamento do Santos na Copa do Brasil estará congelado. Ou seja: o Santos não poderá jogar as quartas de final até que o caso das ofensas a Aranha seja julgado no Pleno. 

— O Pleno pode mudar este resultado. O Grêmio não pode aceitar uma decisão destas. Se necessário, poderemos recorrer à Fifa — declarou o advogado do Grêmio Gabriel Vieira.

O julgamento:
Foram quase quatro horas de provas de vídeo e de depoimentos. O subprocurador Rafael Vanzin apresentou as imagens de torcedores ofendendo Aranha na Arena, a já famosa imagem da torcedora Patrícia Moreira gritando "macaco" para o goleiro, entrevistas dos jogadores falando sobre racismo ao final da partida entre Grêmio e Santos, além da dura entrevista do camisa 1 santista ao Fantástico, na qual afirmou ser "tolerado", e não aceito pela sociedade, por ser negro. 

Em seguida, a defesa do Grêmio recorreu a seus vídeos e às suas campanhas institucionais (Sou Azul, Preto e Branco) contra o racismo, citou seus ídolos negros e o autor de seu hino, Lupicínio Rodrigues, para provar que não pode receber a pecha de clube racista. E recorreu ao presidente Koff para falar em nome do clube.

— Tenho absoluta certeza das consequências da decisão desta tarde. Estou tranquilo com o que vier. Mas peço consideração ao que o clube faz, é precursor pela integração racial. A decisão atinge um clube com 111 anos de existência, que tem uma escolinha com 1,1 mil crianças, da qual a maioria é de cor. O prejuízo causado à imagem do clube é irreparável. E, se a pena ocorrer, deve ter sentido pedagógico e não ultrapassar limites disso — declarou Koff aos auditores, lembrando que teve 20 anos como magistrado.

Em seguida, o trio de arbitragem passou a ser inquirido. O árbitro Wilton Pereira Sampaio e o auxiliar Carlos Berkenbrock tentaram justificar o fato de não interromper o jogo mesmo após a denúncia de Aranha. 

Alegaram que não confiaram no goleiro e que somente acreditaram na existência dos insultos ao verem as repercussão na imprensa, já no hotel, em Porto Alegre. Por isso, não relataram em súmula as agressões, somente através de um adendo.

Após quase duas horas de sessão, o intervalo proporcionou um encontro do presidente do Movimento Negro do Brasil, Bentilho Jorge da Silva Filho, com o presidente do Grêmio, Fábio Koff. Bentilho comemorou a punição:

— Já estava na hora de um clube ser punido por racismo no Brasil. Espero que isto incentive mais jogadores negros a denunciar as ofensas. 

Leia todos os detalhes do julgamento:

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